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sexta-feira, 2 de março de 2012

Sanitarista Eugênio Vilaça lança livro sobre o manejo das condições crônicas na Atenção Primária Sanitarista Eugênio Vilaça lança livro sobre o manejo das condições crônicas na Atenção Primária


Fonte: Boletim Portal Redes e APS

Será lançado em abril de 2012 o livro sobre O Cuidado das Condições Crônicas na APS de autoria de Eugênio Vilaça. A publicação é o primeiro produto do Laboratório de Inovações  Atenção às Condições Crônicas na Atenção Primária em Saúde no marco das RAS, desenvolvido pela OPAS/Brasil e o Conass. Saiba mais sobre o livro nesta entrevista exclusiva que Eugênio Vilaça concedeu à equipe do Portal para Gestores sobre Redes de Atenção e APS.


Para o autor, a Atenção Primária tem uma longa história no sistema público de saúde brasileiro que se inicia na primeira metade do século passado até chegar ao Programa da Saúde da Família (PSF). A análise do PSF mostrou que essa política de atenção primária foi um sucesso dentro dos limites em que ela se desenvolveu.  Contudo, a permanência de problemas estruturais não solucionados fez com que esse ciclo evolutivo do PSF se esgotasse. Para Vilaça, é necessário inaugurar um novo ciclo que vai se caracterizar pela consolidação da Estratégia da Saúde de Família (ESF). No livro, ele aponta os problemas estruturais que impedem a APS de ser resolutiva e ordenadora das Redes de Atenção à Saúde (RAS’s) e sugere soluções para cada um desses problemas.
Eugênio Vilaça descreve ainda, nessa obra, as principais mudanças na APS para o manejo das condições crônicas e traz experiências nacionais e internacionais de instituições de saúde que ousaram mudar o modelo de atenção.

1 – O que motivou a escrever o livro O Cuidado das Condições Crônicas na Atenção Primária à Saúde?

Eugênio Vilaça - São dois motivos básicos: primeiro é a dimensão da expansão das doenças crônicas e, outro, a crise fundamental do Sistema Único de Saúde (SUS). A crise do SUS possui, de um lado, um componente de subfinanciamento muito forte, mas há outro, que mesmo tendo mais dinheiro não adiantaria que é a crise do modelo de atenção à saúde. Essa crise surge nos últimos 60 anos em função da mudança muito rápida tanto na transição demográfica como na situação epidemiológica. Na metade do século passado, quase metade das mortes eram decorrentes das condições agudas e hoje o percentual está abaixo de 5%.  A situação de saúde, nesse período, caracterizou-se por um envelhecimento muito rápido da população e um aumento muito grande das condições crônicas em geral e das doenças crônicas em particular. E o SUS não se adaptou a isso. Ainda temos uma situação de saúde com tripla carga de doenças, com doenças infecciosas e parasitárias convivendo com causas externas e com a grande hegemonia de doenças crônicas. Paralelo a isso, o sistema que praticamos ainda é um sistema gerado na metade do século passado voltado para as condições agudas. Isso não deu certo nos países ricos e não está dando certo aqui. Então, essa dimensão mais ampla, mais macro, repercute muito forte no ambiente micro, na forma como a clínica é feita, especialmente, a clínica médica. Esse sistema fragmentado, reativo, episódico e voltado para condições agudas e para as agudizações das condições crônicas não dá conta da hegemonia das condições crônicas. No plano micro, tal como revela a experiência internacional visitada no livro, a clínica dos eventos agudos não pode ser transplantada automaticamente para a clínica das condições crônicas. A resposta para essa crise no plano macro foi apontada com o livro sobre Redes de Atenção à Saúde (RAS’s) que mostra a necessidade de superar o sistema fragmentado, reativo, episódico por um sistema integrado, proativo e contínuo e que dê conta das condições agudas e das crônicas. As RAS’s já estão na agenda do SUS, na legislação e agora começa a ser implantada no Brasil. A experiência recente de implantação das RAS’s mostra que a maior dificuldade não está na média e alta complexidade, como o senso comum indica, mas na organização da APS para que ela resolva 85% dos problemas e para que ela ordene a RAS. Sem uma APS forte as RAS´s não operam. Acho que esse é o dilema que está no Brasil agora.  Há uma dificuldade muito grande de se entender isso. Há uma fixação muito grande nas políticas de média e alta complexidades. A APS que nós praticamos não dá conta da epidemia das condições crônicas.