Texto de José Carlos Cacau Lopes, sanitarista de São José do Rio Preto, liberado para divulgação.
Reflete sobre saúde, desigualdades, direitos e controle social. O material foi produzido para subsidiar suas andanças com o controle social e para a campanha da fraternidade de 2012, com o tema Fraternidade e Saúde Pública. Faltam as referências bibliográficas.
Autor: José Carlos Cacau Lopes
“Uma coisa é por idéias arranjadas,
outra é lidar com um país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias...
Tanta gente – dá susto de saber – e nenhum se sossega:
todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego,
comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons...”
(Guimarães Rosa, Grande Sertão: veredas)
*dedicado ao Nelsão, Gastão, Emerson e à Haydée: meus grandes mestres da saúde pública.
Esse texto tem como objetivo servir de apoio a trabalhos de educação e saúde. Sendo assim, busquei utilizar um linguajar coloquial, evitando termos técnicos em demasia. Essa pretensão não se prende meramente às questões didáticas e pedagógicas, mas ao entendimento de que a Saúde conforma um campo de saberes e de práticas que recorta toda espessura da vida humana, não sendo, portanto, objeto de conhecimento e de intervenção limitado pelos procedimentos técnico-científicos instituídos pelas várias disciplinas e profissões que disputam seus domínios. Parte-se aqui de um viés que busca apreender as diversas práticas de saúde como resultantes das ações de diversos atores sociais em disputa. Ou seja, o campo da Saúde vem se configurando historicamente por intermédio da ação política de múltiplos agentes em busca de fazer valer os seus projetos e interesses.
A história da Saúde Pública no Brasil — de acordo com as anotações do professor Gastão Wagner de Souza Campos — ―é aparentemente paradoxal. Contraditoriamente, sua importância decresce no período em que o país acelera seu ritmo de crescimento industrial‖. Tal fato é capaz de demonstrar que a intervenção governamental, tanto na área da assistência médica individual quanto nas ações direcionadas ao enfretamento dos determinantes coletivos do processo saúde/doença, sempre esteve subordinada ―à dinâmica da acumulação capitalista‖. Por outro lado, o modelo de assistência médica, construído em nosso país no curso da nossa história, não foi competente para solucionar os graves problemas de saúde da população brasileira. Do mesmo modo, o modelo econômico e social aqui implantado não foi capaz de enfrentar a miséria, as desigualdades sociais, a evasão populacional do campo e das regiões mais pobres, a urbanização desordenada e espoliadora, a precarização do trabalho, a degradação do nosso meio ambiente, a violência e tantas outras marcas tatuadas na pele da sociedade brasileira, trazendo para os serviços de saúde inúmeras demandas que deveriam ser acolhidas por outras políticas públicas.