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quarta-feira, 28 de março de 2012

Observatório pretende monitorar iniquidades em saúde


Fonte: ENSP/Fiocruz

Com o objetivo de monitorar as tendências das iniquidades em saúde no Brasil e seus determinantes, apoiando políticas e programas desenvolvidos pelo governo e pela sociedade civil para combatê-las, foi lançado, na terça-feira (27/3), oObservatório sobre Iniquidades em Saúde. O espaço pretende se situar na interface entre os sistemas de informação e o processo de definição de políticas, promovendo a interação e o reforço mútuo entre eles. Desenvolvido e mantido pelo Centro de Estudos, Políticas, e Informação sobre Determinantes Sociais da Saúde (Cepi-DSS/ENSP/Fiocruz), o Observatório pretende ainda analisar o impacto de políticas e programas relacionados às iniquidades em saúde, além de promover estudos sobre iniquidades em saúde e seus determinantes.

Pellegrini ressaltou que, durante a Conferência Mundial sobre Determinantes Sociais da Saúde (CMDSS), as discussões em torno de estratégias para ação sobre os determinantes sociais da saúde (DSS), no intuito de combater as iniquidades em saúde, destacaram a importância de que as ações estivessem fundamentadas em sólidas evidências. “De fato, dados, informações e conhecimentos são fundamentais para identificar onde devem incidir as intervenções sobre os DSS e como avaliar seu impacto. Com o lançamento do Observatório sobre Iniquidades em Saúde o Cepi-DSS/ENSP busca contribuir para que o tema das iniquidades em saúde ocupe o destaque que merece nas políticas e preocupações da sociedade brasileira”, destacou Pellegrini.

De acordo com o coordenador dentre os objetivos do Observatório estão também a contribuição para o aperfeiçoamento dos sistemas de informação em saúde – identificando lacunas e deficiências de informação sobre iniquidades em saúde – e a possibilidade de promover a visibilidade das iniquidades em saúde, estimulando o debate sobre formas de combatê-las. Apoiando-se na definição de Cesar Gattini (Assessor de Análises e Estatísticas de Saúde da OPS/OM), Pellegrini explicou que “um observatório de saúde é operacionalmente entendido como um centro nacional de base virtual, orientado para políticas, que tem o propósito de realizar observação integral e informar de maneira sistemática e contínua sobre aspectos relevantes da saúde da população e dos sistemas de saúde, para apoiar – de modo eficaz e baseado em evidências – o desenvolvimento de políticas e planos de saúde, a tomada de decisões e de ações em saúde pública e em sistemas de saúde. Além de contribuir para a preservação e melhoramento da saúde da população, o que inclui a redução das desigualdades”, explicou o coordenador.

A estrutura e funcionamento do Observatório sobre Iniquidades em Saúde procura aproveitar a experiência internacional registrada no relatório Informações sobre iniquidades em saúde nos Observatórios em Saúde no mundo (elaborado por Romulo Paes e Guilherme
Tinoco e encomendado pelo Cepi-DSS). O espaço é voltado para gestores dos sistemas e serviços de saúde; gestores dos demais sistemas e serviços de proteção social; acadêmicos; profissionais do terceiro setor que atuam na saúde e demais políticas de proteção social e população em geral. Para cumprir seus objetivos, o Observatório trabalha em redes de colaboração com pesquisadores, gestores e profissionais de saúde. A dinâmica busca articular produtores de conhecimento e de políticas públicas para promover a tomada de decisões baseadas em evidências.

Segundo Pellegrini, o Observatório integra o espaço de gestão de informação e intercâmbio de conhecimento em DSS já criado pelo Portal de Determinantes Sociais da Saúde e pela Biblioteca Virtual em Saúde sobre DSS, mantidos pelo Centro de Estudos, Políticas e Informação sobre Determinantes Sociais da Saúde da ENSP/Fiocruz. “Esperamos contar com a valiosa contribuição dos colaboradores do Portal de DSS para que o Observatório possa contribuir efetivamente para a melhor utilização dos recursos públicos no combate às iniquidades em saúde no Brasil”.


Estrutura do Observatório sobre Iniquidades em Saúde

O Observatório compreende uma estrutura em três níveis. No primeiro nível, está a publicação de um conjunto básico de indicadores demográficos, econômicos e sociais, assim como de indicadores de situação de saúde e de serviços de atenção á saúde. Serão publicados dados correspondentes a cada indicador desde o ano 2000, assim como alguns gráficos básicos. No segundo nível, será solicitado a especialistas que façam análise das tendências de alguns indicadores, buscando identificar seus determinantes e os efeitos de políticas de intervenção sobre eles. Estas análises serão publicadas com infográficos, para facilitar a compreensão por um público amplo. Segundo o coordenador, análises, estudos e pesquisas em maior profundidade serão estimulados ou encomendados.

No terceiro e último nível, o Observatório publicará notícias, opiniões, entrevistas e experiências relacionadas com as informações e análises por ele produzidas, com ênfase nas implicações dos achados para as políticas de combate às iniquidades. “O usuário terá toda liberdade de descarregar as planilhas, comentar as análises publicadas pelo portal, produzir novas análises, tabelas e gráficos e submetê-las ao Portal para sua publicação”, explicou Pellegrini.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

A CMDSS foi uma oportunidade perdida e a Declaração do Rio pouco política


Entrevista com Anne-Emanuelle Birn
18/12/11 | 23:12


Anne Emanuelle Birn/ Foto: www.utsc.utoronto.ca
English original version: click here


A Sra. considera que a CMDSS alcançou seu objetivo de definir estratégias para combater as iniquidades em saúde através da ação sobre os determinantes sociais? O que a Sra. enfatizaria a este respeito?
A CMDSS reuniu uma impressionante gama de políticos, analistas, especialistas e militantes – de dentro e fora dos governos e agências internacionais – com amplas experiências para compartilhar no que se refere a estratégias passadas e atuais para  combater as iniquidades em saúde e definir ações futuras. No entanto, o formato da Conferência minimizou a participação e impediu qualquer possibilidade real de um engajado, acessível e amplo intercâmbio e debate sobre estas idéias porque as plenárias principais foram altamente estruturadas, muitas vezes superficiais, com apenas uma exceção no último dia (que foi rapidamente cortada), impedindo questões e comentários da audiência. Mesmo a curta sessão prevista para o último dia para resumir as discussões das 10 mesas-redondas paralelas onde se concentrou o intercâmbio de experiências e definição de estratégias – incluindo os esforços da sociedade civil- teve que ser suspensa porque um tempo excessivo foi gasto com desnecessários “destaques (highlights)” da Conferência apresentados por um repórter loquaz e superficial da BBC e funcionários de alto nível de saúde, alguns dos quais com uma compreensão problematicamente estreita dos determinantes sociais da saúde.
Nas sessões paralelas em mesas-redondas no segundo dia da conferência, houve discussão de uma série de estratégias extremamente promissoras para reduzir as iniquidades em saúde no âmbito dos cinco temas da Conferência – desde abordagens da participação cidadã na Bolívia, Cidade do México, Cuba e sul da África, entre outros locais, até a construção do Estado de bem-estar social em países tão distintos como Brasil e Finlândia; as transformações do setor público de saúde em todo o mundo, a transformação democrática da governança global em áreas como a regulação comercial e financeira, os caminhos que permitem que a medição e monitoramento das iniquidades em saúde sejam fundamentais para garantir a responsabilização, tal como aconteceu nas Américas, Nova Zelândia, Índia e África do Norte, e assim por diante. No entanto, porque estas questões e o resumo dessas sessões paralelas foram excluídos da plenária principal, a maioria dos participantes – incluindo ministros que se reuniram simultaneamente e separadamente das mesmas – não teve acesso ao rico conjunto de discussões que tiveram lugar nestas sessões.
De maior preocupação é que a Declaração Política do Rio sobre Determinantes Sociais da Saúde não tomou em conta as muitas estratégias e medidas concretas apresentadas nas sessões paralelas, nem as vozes e as perspectivas de interesse público e coletivo das organizações e movimentos da sociedade civil, compilando em seu lugar um menor denominador comum de ações vagas, sem mecanismos de responsabilização.
Neste sentido, a Conferência foi uma enorme oportunidade perdida para a discussão sobre como os principais fatores identificados pela Comissão sobre Determinantes Sociais da Saúde da OMS como responsáveis pelas iniquidades em saúde – a injusta distribuição de poder, recursos e riqueza – serão abordados pelos Estados membros e agências da ONU.

terça-feira, 22 de novembro de 2011